Preciso de desenhar.
Ou antes, preciso de vender desenhos.
Esta necessidade não seria nada de extraordinário se não fosse o desenho uma das minhas principais (e débeis, devo dizê-lo) formas de subsistência, sobretudo agora que estou sem emprego e também sem nenhum trabalho à vista (sim porque às vezes mesmo não tendo emprego acabo por ter aqui e ali um biscate que já dá para alguma coisa... mas não ultimamente).
Quando se precisa assim desesperadamente de ter produção a sair acontece com alguma frequência ter aquilo que em gíria artística se chama "uma branca".
Foi assim que me encontrei no atelier, em plena branca de inspiração, frente a uma folha (também ela branca, só para chatear) e sem vontade nenhuma de fazer mais uma das minhas receitas-que-vendem-sempre, com as princesas da ervilha...
...e foi aí que me lembrei "Vou desenhar lobos, mas vou fazer disso uma aula de técnica!!"
Normalmente ando tão embrenhada na ilustração e em fazer coisas concretas que muitas vezes me esqueço que devia desenhar sem propósito em especial, só para não destreinar a mão.
Eu precisava de um modelo e escolhi os lobos... é óbvio que eles não apareceram aqui por mero acaso e claro que vou querer usá-los em desenhos futuros, de preferência com meninas de vermelho à mistura, mas foi refrescante poder encher uma folha de testes sem ter a pressão de ser uma "arte final" e apenas procurar linguagens novas. Peguei num livro que tenho só sobre lobos e meti mãos à obra!

O desenho acima foi a minha primeira tentativa. Foi feito a lápis de carvão numa folha de aguarela, mas não me satisfez. Este bicho sugeria-me algo rude, espesso e escuro... queria trabalhar a forma do lobo como uma mancha negra de onde saíssem dois olhinhos amarelos. Como não tinha esse material comigo fui para casa.

No dia seguinte, munida de lápis de cera aguareláveis e mais uma série de imagens de lobos tentei compreender a forma da cabeça do animal. Eu nunca fui muito boa com canídeos, e como nunca tive um cão não tenho sequer a memória nas minhas mãos. O que é uma pena.
(Isto é o meu lado de escultora a falar: Sou de opinião que se conhecermos uma coisa muito bem pelo tacto conseguimos representa-la melhor no desenho... desta feita, e porque tive gatos durante 17 anos, sou capaz de os desenhar quase de olhos fechados. Já os cães é uma desgraça, se me descuido um bocadinho sai logo um trambolho, meio gato, meio cão e sem ponta por onde se lhe peque!)

À medida que fui insistindo as coisas foram saindo melhor, mas como escolhi desenhar lobos de pelagem clara (por ser mais fácil de perceber os volumes) eles acabaram sempre por se parecerem com os seus familiares Huskies e Pastores Alemães, o que lhes tira alguma da ferocidade...

Acima está o meu primeiro teste de um lobo de corpo inteiro! Gosto muito do efeito que o lápis de cera aguarelável dá e pretendo explorar melhor isso. O solo que o lobo pisa é suposto ser neve, mas o ambiente natural é outra coisa na qual eu tenho de trabalhar (e muito).

Este foi o meu ultimo desenho. Fiquei feliz com a evolução e espero desenhar mais e melhores lobos ainda esta semana!
Material utilizado:
- lápis de cera aguareláveis Cara d'Ache (cores: Antracite, Sépia e Azul Indigo)
- Tinta da China amarela Pelikan para o amarelo dos olhos